Quinta-feira, 11.06.09

 

 

 

 

 

ESPERO

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

              Sophia de Mello Breyner

 



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Quarta-feira, 11.02.09

 

 

 

 

Bebido o luar, ébrios de horizontes,


Julgamos que viver era abraçar


O rumor dos pinhais, o azul dos montes


E todos os jardins verdes do mar.


Mas solitários somos e passamos,


Não são nossos os frutos nem as flores,


O céu e o mar apagam-se exteriores


E tornam-se os fantasmas que sonhamos.


.


Por que jardins que nós não colheremos,


Límpidos nas auroras a nascer,


Por que o céu e o mar se não seremos


Nunca os deuses capazes de os viver.

 

 

Sophia M. B. Andresen

 



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Sábado, 07.02.09

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Que bom seria
estar agora nos teus braços,
apertar meu corpo contra o teu,
para acalmar este peito meu,
que ardendo de paixão,
pede e implora por um abraço teu.

Abraça-me, amor...
transporta-me ao nirvana sonhado,
há tanto tempo esperado...
onde hoje quero viver com você,
extasiar-me de amor e prazer...

Abraça-me forte,
aplaca esta saudade de você...
Fechemos as portas do nosso castelo,
redoma das nossas mais secretas fantasias,
dos nossos mais secretos delírios,
reduto encantado do nosso amor.

Deixemos nossos corações,
há tanto tempo batendo em ânsia louca,
entrelaçarem-se no mesmo pulsar.
Aqueça-me com teu corpo,
afugenta o frio das minhas noites de solidão,
faz-me esquecer todo o temor
dos fantasmas que estiveram a rondar
as horas lânguidas dos meus dias sem você.

Abraça-me como senhor, soberano de mim...
e deixa-me ouvir a tua voz...
bem ao meu ouvido, sussurrando com emoção,
as palavras que apenas em sonhos ousamos pronunciar.
Abraça-me assim... cole-se a mim...
e meu ouvirás também te dizer,
como e quanto os meus pensamentos são teus.

 



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Sexta-feira, 30.01.09
Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

 

 

 

JUAN RAMÓN JIMÉNEZ



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Domingo, 25.01.09

фото | Роман098 (Sergey Ryzhkov) | Из серии \"Акварели\" - Андриатика....

 

 

 

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
 

 

FERNANDO PINTO DO AMARAL



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Terça-feira, 20.01.09

 

 

 

 

 

 

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem - e eu não protesto -
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos…
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos
- Adormenta esta dor que me domina!

Judith Teixeira



publicado por Lumife às 19:16 | link do post | comentar

Sexta-feira, 16.01.09

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

 Florbela Espanca



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Sábado, 03.01.09

 Almas a Nu...

Foto de Marta Ferreira - Olhares

 

"Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto e a luz é fraca e treme e eu tenho medo das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas da casa e de tudo aquilo com que sonhes. Não adormeças já.

 

Diz-me outra vez do rio que palpitava no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje te mordem os gestos e as palavras.

 

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai demorar-se a regressar. Há tempo para uma história que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres, serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória, como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono se agora apenas me olhares de longe e adormeceres."

 

 

Maria do Rosário Pedreira



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Sábado, 18.08.07

 

 

foto de Gerhardt Thompsonz


 

 

 

 

 

 

 

 

Ó meu saudoso olhar, penumbra triste
Que da alma das coisas se enamora,
Onde o riso se extingue e aonde chora
A lágrima de tudo quanto existe.


Ó meu saudoso olhar, relembra agora
Aquela doce luz que um dia viste
Iluminar-te a vida e que persiste
Em deslumbrar-te ainda, como outrora.


Tudo é silêncio e dor; tudo é saudade.
E lembro o meu amor e o seu encanto,
Os seus olhos de estranha claridade.


Ó meu bendito amor! Bendita luz!
Por quem eu dava a vida e tudo quanto
Além da própria vida me seduz!

 

ANRIQUE PAÇO D'ARCOS

 

 



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Domingo, 29.10.06

 

De tudo só ficam três coisas:


A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que é preciso continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.


Portanto devemos fazer:


 Da interrupção um novo caminho. Da queda, um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.


 (Fernando Pessoa)



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Domingo, 14.05.06

 

 

A pele esbate-se num gesto final
liberto-me da escravidão dos dias
(somos todos escravos da vida)
Pairo simplesmente
lá fora o néon
circula com certeza matinal
caos de cimento e tédio



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Sábado, 15.04.06

 

фото | Роман098 (Sergey Ryzhkov) | Осенние искушения.....

Foto de Sergey Ryzhkov

 

R E M O R S O

 

Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando !

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse 

 

 

Olavo Bilac

 

 



publicado por Lumife às 17:08 | link do post | comentar

Domingo, 02.04.06
 

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... Acerta... Desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... Iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mario Quintana -

 


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Quarta-feira, 29.03.06

фото | Роман098 (Sergey Ryzhkov) | Из серии \"Жемчужные россыпи...\" - Входите, мистер....

 

POSSE INTEMPORAL

Fazer amor contigo

não é espelhar teu corpo nu

no vítreo do meu espaço

não é sentir-me possuída

ou possuir-te

É ir buscar-te

ao abismo de milénios de existência

e trazer-te livre.

 

(Manuela Amaral)



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Sexta-feira, 24.03.06

 

 

Cartas de amor

 

 

Ah! Os romances de antigamente

tantos segredos em sete chaves

 paixões em linhas perfumadas

 

Ah! Os amores de antigamente

 passionais, tão loucos,ardentes

intensas fogueiras de desejos

 

Ah! os amores de antigamente

guardados em caixas secretas

 dentro do dentro do coração

 

Ah! Os amores de hoje

emoções à distância

em caixas invisíveis

 

Quanto desejo intangível

quantas fantasias loucas

 

 Amor tecido com palavras 

Por olhos que não se vêem

por mãos que não se tocam

 braços que não se abraçam

  

Mas que parece ser tão real

quanto o mais bonito sonho

 

Não existe tempo no amor

existem formas de amar

 

 Amor será sempre amor

 

Só muda a caixa

 

 

 

 

(Graça Ribeiro)



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Terça-feira, 14.03.06
 


Queria apenas por um momento,
Poder apagar o passado,
Poder estar ao teu lado,
Para dizer que te amo.

Queria apenas por um instante,
Poder tocar a tua face,
Poder ter o teu amor,
Poder sonhar um pouco mais.

Queria apenas por um minuto,
Poder ser um daqueles silêncios,
Que quando menos se espera,
Surpreende de forma irreverente.

Queria apenas por um segundo,
Poder ser parte do teu pensamento,
Poder ser a cada instante,
Uma lembrança constante,
Que não se apaga mais.

Enfim, queria apenas uma chance,
Para ter um momento do teu amor,
Um minuto do teu silêncio, e...
Todos os segundos do teu pensamento!



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Quinta-feira, 09.02.06
vftr.jpg


"Nunca diga que esqueceu um amor. Diga apenas que consegue falar nele sem chorar, pois o amor é... inesquecível"





Eu queria ser poeta,

mas poeta eu não posso ser,

porque poeta pensa muito

e eu só penso em você.



Eu te amei no passado,

e te amo no presente.

Se o futuro permitir,

te amarei eternamente!





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Sábado, 28.01.06
mulher ao sol.jpg




SONETO DA MULHER AO SOL




Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo

Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz

A flor dos lábios entreaberta para o beijo

A pele a fulgurar todo o pólen da luz.



Uma linda mulher com os seios em repouso

Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso

O ventre terso, o pelo úmido, e um sorriso

À flor dos lábios entreabertos para o gozo.



Uma mulher ao sol sobre quem me debruce

Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente

E que ao se submeter se enfureça e soluce



E tente me expelir, e ao me sentir ausente

Me busque novamente - e se deixe a dormir

Quando, pacificado, eu tiver de partir...



Vinícius de Moraes



publicado por Lumife às 02:34 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 24.01.06
ramo.jpg





Sê tu a palavra,

branca rosa brava.




Só o desejo é matinal.




Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.




Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.




Beber-te a sede e partir

- eu sou de tão longe.




Da chama à espada

o caminho é solitário.




Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?





(Eugénio de Andrade)





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Sexta-feira, 06.01.06
passion14.jpg


AMOR – POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL




Amor – pois que é palavra essencial

comece esta canção e tudo a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

Reúna alma e desejo, membro e vulva.



Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma a expandir-se

até desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?



O corpo noutro corpo entrelaçado,

Fundido, dissolvido, volta à origem

Dos seres, que Platão viu contemplados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.



Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?



Ao delicioso toque do clítoris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentram.



Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara

mas, varado de luz, o coito segue.



E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da própria vida,

como activa abstracção que se faz carne,

a ideia de gozar está gozando.



E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o clímax:

é quando o amor morre de amor, divino.



Quantas vezes morremos um no outro,

no húmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.



Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um deus acrescenta o amor terrestre.



(do livro “Amor Natural” de Carlos Drummond de Andrade)



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